Quando pego a estrada me enredo em uma história de paixão pelo Brasil. Noroeste paulista rumo à Araçatuba e depois à Fazenda São Benedito.Vou tomando a forma do caminho deixando-me levar pelos olhos em planas e extensas paisagens .Interior do estado de São Paulo com seus verdes pastos, plantações , sítios repletos de beleza fresca.Desfruto som e imagem no clipe mutante do caminho.Na verdade não me interessa o destino,quero ir.Ir para o novo,para a imaginação.A paisagem é um papel que me envolve em sensações;uma alameda de buganvílias de beleza branca –espuma como nunca vi igual,quase cerejeiras tropicais floridas feito algodão doce pendente em cachos delicados.A manada de zebus brancos espalhados que vistos de longe parecem pedras que se movem.Horizonte esticado onde entram os sonhos.
Paradas por mais de uma dezena de pedágios numa viagem de pouco mais de 4 horas.Torres de fábricas espetadas no solo fértil.Lugares para pausa com café quente ,pão de queijo e todas as delícias dos doces do interior.Doces ternos,que carregam um sotaque arrastado de mulheres conversando a beira dos tachos com caldas fumegantes.
Passamos por cidades e cidadezinhas:Botucatu,Bauru,Penápolis,Mirandópolis,Lavínia,Valparaíso.Como é lindo meu estado de São Paulo.Praças e pracinhas,igrejas e igrejinhas.Bandeirinhas de festa junina,a promessa das quermesses animadas do interior.A música sertaneja,as violas e sanfonas.Essa alma brasileira passando por pontes e viadutos,a Melodia Sentimental de Villas-Lobos compõe o clipe que freqüenta minha cabeça neste instante.Cada cidade com a sua personalidade.De interior eu entendo ,embora no momento tenha preguiça de detalhar e prolongar a prosa.No interior ainda se pode deixar para depois porque se pensa que a vida não vai fugir e,com calma o certo é curtir a saúde da preguiça.
De um lado a plantação de cebolas,fartura de água,feixe de brotos verdes bem em pezinho. De outro o canavial fechado.Terra boa em tons do bordô ao rosa claro,areada,nascida para germinar sementes.É por esse caminho de chão que chegamos a fazenda São Benedito.
Maria prepara a mesa do lanche com as guloseimas que vão chegando,queijos e geléias artesanais.A sede é acolhedora,em tudo se percebe o bom gosto de Rosa Maria, dona da casa.Móveis antigos lustrados com capricho,aparadores de época,quadros belos ,estilo que traz a marca das românticas fazendas americanas com tecidos em madras e macias almofadas ,o oratório mineiro para o santo padroeiro.Simplicidade chique,Brasil sofisticado.Jardim bem cuidado dourado de outono,pomar,galinhas ciscando,cheiro de mato e o por do sol faiscando tons de vermelho,laranja ,amarelo ouro.O silêncio do fim de tarde roça pela pele.
Maria é prata da casa. A essência deste mundo rico onde carambolas são balagandãs,e pão com manteiga combina com café passado na hora em coador de pano.
Quero contar a história de Maria,convidá-la a falar sobre a sua vida enraizada no campo,sua lida de todo dia,as antigas fazendas de café .
Tem tempo.
A gostosura do comum, feijão com arroz branquinho bem temperado,a mandioca frita sequinha.O vinho é que decide o rumo da prosa.
A hora das fotos.
Farinha de mandioca, bacon, lingüiça e costelinha de porco.
Conversa na cozinha.
Maria Soares de Brito nasceu em Bento de Abreu uma cidadezinha “pequenininha demais” perto de Valparaíso ,noroeste paulista.Caçula de uma família de três filhos.
Seu pai era arrendatário de terras e quando os contratos terminavam a família deslocava-se para outros lugares. Com quatro anos lembra-se que moravam na Fazenda Santa Maria e vale a pena contar um pouco dessa história:- uma fazenda desbravada nos anos 20 por José Pires Castanho, corretor de café em Santos,SP que ali recebia em seu escritório de corretagem pessoas influentes no cenário cafeeiro paulista como Cunha Bueno e Lunardelli que trouxeram a notícia dessas terras de boa qualidade que contudo precisava ser desbravada. Pires Castanho aceitou a empreita comprando essas terras e plantando lá cerca de um milhão de pés de café. Um lugar inóspito, terra de índios, bem selvagem, curioso, tratando-se do estado de São Paulo. Havia apenas transporte ferroviário e com garantia de vida da companhia até 250 metros da linha; aquele que se aventurasse além dessa medida corria risco de vida pois os índios eram muito bravios. Muita peroba encontrada na região foi usada nas construções da cidade de Santos. A crise de 1929 quase torna inviável o trabalho desse pioneiro. Outras épocas se seguiram além do café, como a próspera fase da criação de gado, muitos premiados em todo o Brasil.
Hoje essa fazenda já não existe no tamanho original, pois todos sabem que filhos e netos vão adquirindo seus quinhões e a fazenda São Benedito é um desses quinhões que pertence a patroa de Maria, Dona Rosa Maria viúva de um desses herdeiros Cláudio Pires Castanho Doneux, um homem de visão que soube aproveitar a força desta terra quando moço plantando algodão numa de suas primeiras atividades antes de seguir para sua vocação como empreendedor e incorporador da construção civil na cidade de Santos nos anos de 1970 com mais de 30 edifícios de alto padrão lançados, a construção do Shopping Center e Hotel Parque Balneário e o condomínio de casas de luxo do Morro Santa Therezinha.
Maria cresceu e conheceu todas essas pessoas vendo e sentindo a força da tradição deste lugar que chegava a abrigar mais de 500 colonos, como verdadeiramente uma cidade com igreja, escola, mercado, etc. Pires Castanho não fazia por menos, tudo era sempre do melhor para todos, um homem como poucos muito honrado e admirado na época. A fazenda era uma cidade que se auto geria.
Estudou na escola da fazenda até o 4º ano primário no sistema de todas as séries juntas,uma fileira para cada série.
A lida da casa sede passava de mãe para filhas e foi assim que sua irmã Alda , sua mãe e ela serviram durante anos a esta família seguindo gerações,depois com Eduardo Pires Castanho filho de José e hoje com Dona Rosa Maria.
Com 20 anos Maria fez o curso Supletivo que na época se chamava Madureza. Com muito esforço formou-se em contabilidade na cidade de Mirandópolis perto da fazenda.
Ela se lembra emocionada dos colonos, do movimento intenso com trabalho para todos. Embarga a voz ao contar da crise de 1984 quando o número de empregados diminuiu ea desolação ocupou o lugar da alegria e da fartura.Permaneceu atendendo a s necessidades da família até o ano 2000 ora no escritório na sede da fazenda ora em São Paulo onde a família residia. Faz parte de uma época em que a lealdade e a dedicação eram valores reconhecidos e motivo de orgulho dos funcionários.
-Maria, como você sente a sua ligação com esta terra?
Nossa é tudo!Eu lido nela com prazer e gosto. Acordo pela manhã,abro a casa da sede,molho o jardim,faço a limpeza preparando tudo para quando os donos chegarem.Vasculho tetos e paredes,repasso os olhos por tudo,limpo todos os vidros que são muitos.Depois inseticido tudo.Quando eles vêem eu faço a arrumação,a comida e sirvo a mesa.Cuido para que tudo esteja sempre em ordem do jeito que Dona Rosa gosta.
-Uma virtude sua;
Eu nasci com paciência .É difícil a vida mas com paciência dá-se um jeito. (Enquanto conversamos chega o Ricardo com um cabrito dividido em quartos para colocar no freezer.Maria prepara tudo,oferece a faca de corte,acompanha o trabalho do moço.Fala firme e baixinho,prestativa,atenta a todos os detalhes.Sugere os cortes das peças,segura o pernil e num instante o cabrito vai pro freezer dobradinho)
-Qual é a graça da vida?
Dá uma risada gostosa e fala “Ai meu Deus”,tem que ter amor a tudo que se faz.Se não tiver amor minha filha a gente não acha graça em nada.
-Com seus 63 anos vividos nestas terras o que mudou?-o que era melhor antes e agora o que é bom?
Hoje eu vejo as coisas e valorizo.Antigamente a ingenuidade me deixava num mundo fechado e a parte.Hoje minha mente se abriu para o mundo.Antes era tudo muito lento,a gente fazia crochê embaixo da arvore depois do almoço na casa da minha tia.Nem sei como isso acabou.
Apesar dos perigos da vida moderna eu sei que viver é um risco e temos que enfrentar.Antigamente eram bailes e quermesses.Gostava das festas nas fazendas.Hoje o ruim é a falta de respeito,a ganância e a inveja.
As pessoas antes repartiam a fartura.
-E os sonhos?
Meu sonho era morar na cidade e até hoje Deus não me permitiu isso ainda.
-E o que te encanta na cidade?
Encontrar as pessoas ,ver as vitrines e o movimento.
Tenho uma casinha na cidade mas penso que aqui esta tão bom.Eu valorizo o sossego que tem aqui ,brigas me apavoram muito.
-Qual o segredo de viver bem?
Ai só Deus é que sabe,não sei nem como responder isso ,nem a palavra certa .Para ter tudo que quero nem que seja o mais simples tem que ter harmonia com o meu companheiro.
-Dinheiro traz felicidade?
Só para o sustento .Dinheiro demais só traz tristeza . A fé é que traz felicidade .A força do pensamento em Deus nos traz coisas boas.
Jogo Rápido
Saudade - dos meus pais e irmãos e do tempo de escola que eu adorava
Cachorros- é o melhor amigo mesmo
Tempo bom- outono .Quando aparece uma fumacinha branca no céu azul.
Brasil- é verde
Estrada- adoro.Olho de um lado e de outro e gosto.
Mensagem
“Procure amar e respeitar o próximo . Só assim teremos felicidade.”









